No ano 105, T’sai Lao, administrador no palácio do imperador chinês, começou a misturar cascas de árvores, panos e redes de pesca para substituir a sofisticada seda que se utilizava para escrever. Ele, com certeza, não poderia imaginar a utilização que a humanidade faria desse invento chamado papel. O império chinês manteve segredo sobre as técnicas de fabricação do papel durante séculos, pois exportava esse material a preços altos. No século VII, por intermédio de monges coreanos, a técnica para fabricar papel chegou ao Japão como "um negócio da China", e um século mais tarde, os árabes obtiveram o segredo desse processo. Na Europa a técnica chegou por volta do século XII, e dois séculos mais tarde já se espalhava por todos os reinos cristãos.

Nem sempre o papel teve boa qualidade. Exceto na China e no Japão, onde desde os primeiros momentos era possível a prática de dobrá-lo, no resto do mundo, principalmente na Europa, o papel era grosso e frágil, dificultando a prática de dobraduras. Só a partir do século XIV, conseguiu-se fabricar um papel mais fino e flexível na Europa. Mas o altíssimo custo para sua fabricação era também obstáculo para a popularização do origami.


É certo que essa arte teve sua origem na China a partir do manuseio do papel. Mas, ao que se sabe, sua prática não se tornou muito popular nesse país. No Japão, o Origami converteu-se numa prática comum assim que o custo do papel caiu, sendo hoje considerada um patrimônio da cultura japonesa.


INo início, tinha caráter simbólico nos rituais das cerimônias xintoístas. Os noshis, oferendas que se faziam nos templos, eram envoltos em papel, cuja função era separar o puro do impuro. A evolução desses envoltórios com dobras cada vez mais complexas e atraentes foi tanta que o origami deixou de ser um meio para converter-se num fim. Assim, esses origamis foram sendo apresentados de maneiras diferentes, seguindo algumas regras básicas, respeitadas por todos que dobravam. Uma tradição que tem raiz no século XII. Também nessa época constatou-se a existência de um rito matrimonial em que papéis eram dobrados partindo da base do balão, simbolizando os noivos (mariposas). As mariposas – macho e fêmea – envolviam as garrafas de saquê, simbolizando a união.

Na Europa, sem esse sentido religioso, existia no século XVI o costume dos estudantes da Universidade de Pádua que, ao visitar seus professores, deixavam um cartão de visita com seu nome, dobrado de forma a expressar um sentimento ou intenção.

O nó pentagonal que os japoneses usavam para escrever suas orações era conhecido na Europa desde o século XII, principalmente entre os estudiosos de Geometria.

A dessacralização do origami ganhou terreno paralelamente à redução dos custos. As classes mais populares começaram a ter acesso a essa prática e logo suas técnicas foram bastante disseminadas. As figuras representavam objetos da vida diária (capacete de samurai, bonecas, barcos etc.). Muitas dessas peças são dobradas até os dias de hoje. A beleza das peças, em grande parte, vem da leveza do papel artesanal utilizado em sua confecção.

A semelhança entre as figuras japonesas e as tradicionais figuras européias pode ter acontecido por uma comunicação direta feita entre missionários e comerciantes. Ambas as tradições têm figuras iguais, com predominância das dobradas com ângulos de 45 graus. Algumas estão documentadas na Europa desde o século XVII. A pajarita (passarinho) espanhola passou a denominar todas as figuras dobradas na Espanha. Os espanhóis acreditam ser, no contexto europeu, o povo que com mais força manteve essa tradição.

Quando as bases do pássaro e da rã surgiram no Japão, quem poderia avaliar seu potencial? Acredita-se que 80% das figuras conhecidas hoje têm sua origem nelas. Tecnicamente, essas duas bases consistem em trabalhar com ângulos de 22,5 graus no papel quadrado, o que gera uma ampla liberdade de movimentos nas quatro pontas.



Uma das figuras representativas do origami é o grou (tsuru), que simboliza a eterna felicidade e é muito popular entre os japoneses.
O primeiro livro com instruções para dobrar – O segredo para dobrar mil grous – apareceu em 1797 e descrevia a maneira de dobrar 49 grupos de grous unidos, às vezes com cola, outras pelas asas. O fato de só estarem indicados o formato do papel e a maneira de realizar os cortes demonstra a popularidade dessa figura.

Em 1700, havia na Europa uma técnica utilizada pelos mágicos que consistia em formar múltiplas figuras dobrando-se um papel em leque e depois girando. O primeiro livro que fala sobre isso é Hocus Pocus, de autoria desconhecida e muito popular entre os mágicos da época. Na década de 1920, o grande Houdini, mais conhecido pela habilidade de escapar rapidamente de qualquer tipo de amarras, também demonstrava habilidade com papel.

Origami na Educação

Assim como no Japão, na Europa o origami era praticado principalmente pelas crianças. Por isso o pedagogo Froebel percebeu rapidamente a possibilidade de educar a partir de brincadeiras com dobraduras em papel. Na prática habitual de seus "Jardins de Infância", estavam as figuras tradicionais da época e também uma série de dobraduras geométricas, chamadas depois de "froebelianas".

Quando os portos japoneses se abriram para os países ocidentais, propiciaram uma revolução na arte de dobrar papéis. As bases do pássaro e da rã chegaram à Europa, onde não eram conhecidas. A base do pássaro chegou não na figura do grou, mas sim na forma de um pássaro que batia asas, estranhamente desconhecida no Japão. Os geômetras, por sua vez, não ficaram insensíveis e viram no origami muitas possibilidades pedagógicas. Um livro do hindu Sundara Row, Geometric Exercises in Paperfolding, publicado em 1893, é um amplo tratado de geometria com origami, ainda que outros o tenham precedido. Esse livro foi reeditado pela Dover (EUA), e é um excelente material de apoio didático para professores de matemática.

Já no século XX, a tradição de considerar o origami somente como uma brincadeira de criança começou a evoluir pelas mãos de Isao Honda, no Japão, e Miguel de Unamuno, na Espanha. Ambos os autores realizaram uma cruzada quase simultânea para conseguir a consideração das classes mais cultas em relação ao origami. É certo que o desenvolvimento da arte de dobrar papel tal qual a conhecemos hoje somente aconteceu nos últimos 50 anos. Da década de 1950 vem a idéia de consenso de Akira Yoshisawa para a representação gráfica das dobras, diferenciando, por exemplo, as dobras vale e montanha. As dobras que servem como matrizes para a produção de figuras são chamadas de bases. A sistematização das dobras e bases permitiu ampliar a criatividade dos autores, que criam não apenas peças, mas também novas bases.

Na efervescência dos anos de 1950 e 1960, foram os norte-americanos os primeiros a impulsionar a explosão "origâmica", especialmente Lilian Oppenheimer, fundadora do The Origami Center New York, em 1958